A Divina Comédia de Dante Alighieri, símbolo da cultura e da língua italiana no mundo, do qual poeta celebramos este ano o sétimo centenário do seu nascimento, foi fonte de inspiração de muitas alegorias criadas para  o Carnaval de Viareggio,  no decorrer de sua longa história, como  corroboram  os  belos esboços apresentados  na exposição “DanteVale”. Fazendo uma retrospectiva de vários momentos recentes da história  política e social da Itália, as alegorias “dantescas” com seu apelo satírico, mordaz e  irreverente e, ao mesmo tempo, sempre lúdico e burlesco, também nos convidam a refletir sobre vários assuntos contemporâneos que perduram na atualidade. Confirma-se assim a força, a vitalidade e a universalidade da mensagem do Sumo Poeta, exaltada pela genial criatividade dos mestres, que permeia a grande tradição cultural e popular do Carnaval, aproximando e unindo ainda mais a Itália ao Brasil e, em particular, ao Rio de Janeiro.

 Espero vivamente que a exposição, não só estimule um maior interesse dos visitantes pela língua e cultura italiana em geral, mas possa também promover o início de um caminho de colaboração concreta visando a valorização e compartilhamento das ricas tradições artísticas artesanais e produtivas dos históricos carnavais de Viareggio e do Rio de Janeiro, também numa perspectiva de desenvolvimento econômico e turístico dos respectivos territórios.

Agradeço, portanto, a Presidente da Fundação Carnaval de Viareggio, Maria Lina Marcucci, por tornar possível a realização da exposição; o Presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio, André Ceciliano, pela excelente colaboração com o Consulado e por acolher a exposição no prestigioso Palácio Tiradentes, contribuindo assim para o fortalecimento da cooperação cultural entre a Itália e o Estado do Rio; assim como, agradeço o Subdiretor-geral de Cultura da Alerj, Nelson Freitas, pelo valioso apoio.

Por fim, um agradecimento póstumo a Ivana Papa, falecida em julho passado, que, desde o início, promoveu esta iniciativa cultural com tanta paixão e determinação.

Paolo Miraglia del Giudice
Paolo Miraglia del Giudice

Cônsul-Geral

Com “Dante…Vale”, Palácio Tiradentes reforça sua vocação histórica e cultural

A exposição “A Dante… Vale” é um novo marco na história do Palácio Tiradentes. Sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) por 46 anos, ele reabre as portas ao público – após suspensão das visitas em razão da pandemia da Covid-19 – como importante espaço de cultura e de memória da política estadual e nacional.

É um privilégio trazer para a população fluminense o acervo que conta a trajetória deste escritor, poeta, filósofo e político, que é considerado o pai da língua italiana. A mostra, que vai ocupar o Salão Nobre, reverencia os 700 anos da morte do criador da “Divina Comédia”, uma das obras mais importantes da literatura mundial.

Mesmo o brasileiro que ainda não conheça a obra de Dante vai se identificar imediatamente com a exposição. Dante e sua obra épica são retratados em 17 esboços originais de carros alegóricos que desfilaram em diferentes edições do carnaval de Viareggio, cidade italiana na região da Toscana com 148 anos de tradição da festa popular.

Assim como nos nossos desfiles de escola de samba, a sátira e a crítica social e política estão na leitura moderna dos desenhos de Viareggio, na descrição do purgatório, do inferno e do paraíso narrados pelo escritor e que até hoje inspiram artistas do mundo inteiro. Nosso agradecimento ao Consulado-Geral da Itália no Rio de Janeiro, parceiro de primeira hora nessa ousada iniciativa.

Ao abrigar no Palácio a trajetória deste grande autor, reforçamos nossa participação no roteiro cultural do Centro Histórico da cidade do Rio. Futuramente, essa presença será consolidada com a implementação do Museu da Democracia. O edifício, inaugurado em 1926, é testemunha quase centenária das transformações do espaço público, da sociedade carioca e da política nacional e fluminense. Há muita história para ser contada e nosso objetivo é ativar toda essa memória sob a ótica do presente.

Palácio Tiradentes é e sempre será a Casa do Povo!

André Ceciliano
André Ceciliano

Presidente da ALERJ

Dante e o carnaval 

“A Divina Comédia” é signo flutuante que brilha séculos afora em sua navegação infinita. Qual antiga juventude, eterna, que ajudou a criar boa parte das línguas do Ocidente para além de uma dimensão cosmopolita, profunda e contemporânea. 

Como obra dotada de contínua juventude, tão pujante quanto interpeladora, aproxima-se de uma perspectiva carnavalesca, simultaneamente inquietante e extática. Recordo as vezes, tantas, que visitei a cidade do carnaval de Viareggio, onde encontrei, entre outros, importantes artistas desta festividade, como Francescone e Gali, presentes também na exposição que, em boa hora, o consulado da Itália propõe ao Rio de Janeiro. Creio ser esta uma ligação privilegiada entre o traço popular da “divina comédia” da  cultura italiana e da carioca. 

O divino da “Comédia” provém de Boccaccio, sem jamais ter perdido o sentido de  comédia – não só por começar do Inferno e acabar na alegria do Paraíso, mas também por escolher a língua vulgar, ou a língua italiana nascente, em lugar do latim. 

Trata-se de um entre notáveis modos de compreender essa ligação matizada entre duas Romas, talvez três. Roma que era a capital do mundo para Dante. Roma do Rio de Janeiro, que foi para Darcy Ribeiro prova exemplar da relação, profunda e ecumênica, que a geografia carioca e sua cultura propuseram ao mundo. E finalmente a que o próprio Dante reivindica como sua, a Roma celeste em que Cristo é mais romano. 

Nessa exposição, o Consulado da Itália traz, além de tudo, uma mensagem de paz em  momento tão difícil e dramático. Um sorriso entre tantas ruínas, apontando, assim como Dante, uma passagem por entre a selva escura. Para o mergulho profundo na luz.

Marco Lucchesi
Marco Lucchesi